A QUE PONTO CHEGAMOS!
A estrutura de inteligência do Estado foi instrumentalizada para espionar adversários políticos. Essa é a chocante conclusão da investigação conduzida pela Polícia Federal no caso conhecido como ABIN PARALELA. Em março de 2023, o jornal O Globo revelava a aquisição, pela Abin, de um software espião israelense — o First Mile — destinado a monitorar, em tempo real, a localização de alvos predeterminados em todo o território nacional. Tudo isso ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro.
Uma rede clandestina foi instalada no coração do poder, dentro do Palácio do Planalto, operando à margem da legalidade. Celulares de pessoas tidas como opositoras do governo — incluindo ministros do Judiciário, parlamentares, religiosos e jornalistas — passaram a ser rastreados sistematicamente.
Mais de 60 mil buscas foram registradas contra alvos políticos ao longo do governo anterior. Um dos trechos mais reveladores do relatório da Polícia Federal traz áudios de agosto de 2020, nos quais o então diretor da Abin, Alexandre Ramagem, e o presidente Jair Bolsonaro discutem estratégias para blindar o senador Flávio Bolsonaro, investigado no escândalo das “rachadinhas”. Chegam, inclusive, a levantar supostas irregularidades cometidas por auditores da Receita Federal.
Policiais federais são apontados como peças-chave da organização criminosa montada dentro da Abin. O famigerado “gabinete do ódio”, idealizado e comandado por Carlos Bolsonaro, usava informações sigilosas obtidas por meio ilegal para promover ataques virtuais contra adversários políticos e manipular a opinião pública. De acordo com a PF, funcionários da Presidência da República integravam essa estrutura paralela, operando sob a chefia direta do próprio Carlos Bolsonaro.
Na emblemática reunião ministerial de abril de 2020, o então presidente deixou escapar um trecho revelador: “Sistemas de informações: o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm oficialmente, desinformam”. A frase não apenas confirma a existência da Abin paralela, como escancara sua natureza subversiva.
A Polícia Federal foi contundente: “Composto por figuras de alto escalão do governo à época, incluindo potencialmente o então Presidente da República JAIR MESSIAS BOLSONARO e seu filho, Vereador CARLOS NANTES BOLSONARO, forma o núcleo responsável por definir as diretrizes estratégicas da ORCRIM, determinar os alvos das ações clandestinas (opositores, instituições, sistema eleitoral) e se beneficiar politicamente das operações. Era o centro decisório e o principal destinatário das ‘vantagens’ ilícitas (manutenção no poder, ataque a adversários)”.
Neste capítulo sombrio da nossa história política, há episódios que beiram o ridículo. Em maio de 2019, o agente de inteligência Thiago Gomes Quinalia utilizou o sistema First Mile para consultar, entre outros, um homônimo do ministro Alexandre de Moraes. Até um candidato à presidência do Vasco entrou na mira da espionagem. A operação se dividia em grupos como “Turmas de Buscas” e “Grupos de Consulta”. Mas muitos desses agentes demonstraram completo amadorismo — uma marca, ao que parece, dos golpistas. Felizmente.
No total, 36 pessoas foram indiciadas. Entre elas, estão nomes que ocupam cargos na atual gestão da Abin, como os delegados Luiz Fernando Corrêa (diretor-geral), Luiz Carlos Nóbrega (chefe de gabinete) e José Fernando Chuy (corregedor-geral). Todos são delegados de carreira da Polícia Federal, nomeados no atual governo. O mais grave, no entanto, é a constatação de que parte dos investigados mantinha conluio com setores da atual administração da agência.
A investigação conclui que a Abin paralela fazia parte da engrenagem golpista. A cada dia, surgem novos elementos que tornam ainda mais difícil o futuro político do ex-presidente.
A que ponto chegamos!
E o mais inquietante: **o que ainda falta sabermos?
Rui Leitão
