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HILOMAR ARAÚJO

Crônicas de Sábado –  O mesmo relógio cruel, em noites diferentes


Toda eleição tem um tribunal ao vivo. No Brasil, ele tem duas cadeiras, uma bancada e chama-se Jornal Nacional. Nesta semana, ele recebeu em noites seguidas os dois nomes que vão dividir o país até outubro: Lula na quinta e Flávio Bolsonaro na sexta.
O cenário foi o mesmo. Renata Vasconcellos com a firmeza de quem já viu de tudo naquela bancada e César Tralli com a serenidade de quem precisa provar que pode perguntar duro sem precisar levantar a voz. E o terceiro entrevistador, aquele que ninguém apresenta: o relógio.
Na quinta, Lula sentou-se como quem volta para casa. Conhece cada câmera, cada luz e cada silêncio. Falou como presidente, não como candidato. Quando o assunto era obra, número e estrada, falava com conforto. Quando o assunto era família, filho, INSS e futuro eleitoral, o tempo, aquele mesmo relógio cruel, parecia não andar.
Na sexta, Flávio sentou-se como quem precisa provar que cabe na cadeira. Entrou com a mão marcada à caneta com as palavras mudança, futuro e 7 de setembro. A internet riu da cola, mas a cola era sincera.
Se Lula estava à vontade demais, Flávio estava tenso demais. Se Lula alongava as respostas para o relógio correr, Flávio encurtava para o relógio não bater. Tempos diferentes.
Lula é o presidente que precisa explicar porque quer ficar. Flávio é o senador que precisa explicar porque acha que pode chegar. Um tem o peso do cargo, o outro tem o peso do sobrenome Bolsonaro.
E para decidir tudo, todos nós.

“O relógio ganhou de novo.
Ele sempre ganha”.

Hilomar Araújo : .

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