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JAIMACY ANDRADE

De mulas a tanques: A fascinante história da evolução dos desfiles da Independência no Brasil


Ilustração: IA

A celebração da Independência do Brasil nasceu oficialmente após a proclamação da separação em relação a Portugal. O marco fundamental das comemorações ocorreu no dia 7 de setembro de 1822, às margens do riacho do Ipiranga, na atual cidade de São Paulo, no estado de São Paulo. A iniciativa de formalizar o rompimento e consolidar o ato histórico partiu do então Príncipe Regente, D. Pedro (mais tarde coroado imperador D. Pedro I), apoiado fortemente por uma rede de articulação política integrada por figuras como José Bonifácio de Andrada e Silva e pela Princesa Maria Leopoldina. Foi Leopoldina quem assinou o decreto formal de separação no Rio de Janeiro dias antes e enviou as cartas urgentes a D. Pedro, impulsionando a declaração oficial no 7 de setembro. Logo após o retorno da comitiva à capital imperial, o Rio de Janeiro, a data passou a ser celebrada anualmente com festividades populares, desfiles e celebrações cívicas que buscavam legitimar o novo Império do Brasil.

Desfile em João Pessoa. Foto: BigPB

Qual era a montaria de D. Pedro I no dia do grito da Independência?

Para além do heroísmo eternizado nos livros escolares, o dia do chamado “Grito do Ipiranga” esteve cercado de episódios peculiares e realistas. Uma das principais curiosidades é que D. Pedro I não montava um pomposo cavalo branco no momento do ato, mas sim uma mula. A escolha do animal de carga era uma necessidade prática para enfrentar a desgastante subida da Serra do Mar, trecho íngreme que conectava o litoral paulista ao planalto.

Outro detalhe curioso revela que o futuro imperador passava por apuros físicos. Durante o trajeto de volta de Santos para São Paulo, D. Pedro enfrentou um forte mal-estar intestinal — atribuído por historiadores a água contaminada ou alimentos estragados ingeridos no litoral. O Príncipe precisou realizar sucessivas paradas ao longo do caminho, e a histórica parada às margens do riacho do Ipiranga ocorreu justamente durante uma dessas pausas forçadas. Foi ali, vestindo trajes simples de viagem e longe de qualquer pompa real, que ele recebeu os mensageiros e declarou a independência do país.

A imagem clássica do evento com vestimentas impecáveis, multidões festivas e um vigoroso cavalo é fruto da construção de um mito nacionalista. A obra mais famosa do episódio, a pintura “Independência ou Morte”, foi idealizada pelo artista Pedro Américo apenas em 1888 — 66 anos após o acontecimento. O pintor utilizou da licença artística para criar uma cena monumental e heroica que atendesse às expectativas da monarquia da época, romantizando o que foi, na realidade, um momento improvisado, pragmático e bastante humano.

Os desfiles do 7 de Setembro passaram por uma evolução histórica, dividida em três fases principais:

  • Primeiras celebrações (Século XIX): Logo após 1822 e durante a Proclamação da República (1889), as comemorações ocorriam de forma pontual no Rio de Janeiro (então capital do país), misturando festas populares, salvas de canhão e pequenos cortejos de autoridades e regimentos militares.

  • Formato cívico-escolar (Décadas de 1920 e 1930): Foi após a Primeira Guerra Mundial e durante a Era Vargas que as passeatas e marchas organizadas ganharam força. As escolas públicas e privadas passaram a marchar ao lado de corporações para incentivar o civismo, o patriotismo e o sentimento de unidade nacional.

  • Oficialização como desfile militar nacional (1946–1960): O desfile militar e cívico em larga escala, nos moldes em que conhecemos hoje, consolidou-se após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946 (quando o 7 de Setembro foi fixado como feriado nacional oficial). Com a inauguração de Brasília em 1960, a nova capital federal assumiu a realização do desfile oficial do país na Esplanada dos Ministérios.

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