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A renúncia de Jânio Quadros

Na manhã de 25 de agosto de 1961, por volta das 6h30, Jânio Quadros chegou ao Palácio do Planalto e informou a seus assessores que, após as solenidades do Dia do Soldado, redigiria sua carta de renúncia. Declarou:

“Chamei-os para dizer-lhes que renunciarei à Presidência. Não sei exercê-la. Já que o insucesso não teve a coragem da renúncia, é mister que o êxito a tenha. Não exercerei a presidência com a autoridade rebaixada perante o mundo, nem ficarei no governo discutindo a confiança no respeito, na dignidade, indispensável ao primeiro mandatário. Não se trata de acusação qualquer. Trata-se de denúncia de quem tem, como solenes e graves, os deveres do mandatário majoritário. Não nasci presidente da República. Nasci, sim, com a minha consciência. E a esta devo atender e respeitar. Ela me diz que a melhor fórmula que tenho agora para servir ao povo e à Pátria é a renúncia”.

Após apenas sete meses de mandato, Jânio renunciava na expectativa de realizar um autogolpe, acreditando que voltaria ao poder aclamado pelos quartéis e pelo Congresso.

Às 11h, embarcou com a família para a praia do Guarujá, de onde pretendia acompanhar os desdobramentos à distância. Na Base Aérea de Cumbica, antes de viajar, declarou: “Não farei nada para voltar, mas considero minha volta inevitável. Dentro de três meses, se tanto, estará na rua, espontaneamente, o clamor pela reimplantação do nosso governo”. O relato foi registrado pelo jornalista Carlos Castelo Branco na revista Realidade, em novembro de 1967. Contudo, não foi o que ocorreu: nem o povo, nem seus seguidores, manifestaram-se pedindo sua recondução ao Palácio do Planalto.

A crise política que já abalava seu governo se agravara alguns dias antes, em 19 de agosto de 1961, quando Jânio concedeu a Comenda de Grão-Cavaleiro da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul a Ernesto Che Guevara, ministro da economia de Cuba e um dos líderes da Revolução Cubana. A condecoração provocou forte reação das lideranças conservadoras. Além disso, a simpatia do presidente pelas chamadas “reformas de base” —com a possibilidade de uma reforma agrária — contribuiu para acirrar os ânimos da UDN. Houve, inclusive, parlamentares que cogitaram seu impedimento.

O renunciante possuía uma personalidade instável, o que reforça a interpretação de que teria calculado mal seu movimento político. Seu golpismo pode ser explicado pela aversão que demonstrava à negociação e à divisão do poder. Na carta-renúncia enviada ao Congresso, buscou justificar sua atitude afirmando que havia tentado combater a corrupção, mas fora vencido pela reação e esmagado por “forças terríveis”.

O senador paraibano Argemiro de Figueiredo avaliou o gesto de Jânio da seguinte forma:

“Foi a tática premeditada de um homem que se julgava o único capaz de reorganizar a vida nacional. Renunciou como Bolívar, para voltar mais forte. A renúncia foi a primeira etapa do processo de uma ditadura que tinha em vista. Mas isso seria a renúncia às nossas conquistas liberais, a morte da democracia”.

Sem apoio de uma estrutura partidária sólida e incapaz de construir pontes com as Forças Armadas, Jânio fracassou em seu projeto de autogolpe. O Congresso Nacional aceitou a renúncia sem maiores questionamentos e, deixando Jânio para trás, voltou-se para a discussão das condições de posse do vice-presidente João Goulart.

Rui Leitão

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