DIPLOMACIA BRASILEIRA: CAUTELA E FIRMEZA DIANTE DO IMPREVISÍVEL

O governo brasileiro nunca se mostrou reticente em participar de negociações que envolvam interesses estratégicos dos Estados Unidos. Contudo, impõe como condição inegociável o respeito à sua soberania. No que diz respeito às riquezas conhecidas como “terras raras”, é fundamental que o Brasil exija contrapartidas concretas: investimentos diretos, transferência de tecnologia, industrialização local e respeito ao meio ambiente. Só assim poderá se consolidar como ator estratégico no suprimento global de insumos do futuro. Essa postura reafirma a imagem de potência respeitada e necessária no tabuleiro internacional, resultado da habilidade com que tem conduzido suas relações diplomáticas.
Nos últimos dias, o mundo foi surpreendido pelo tom amistoso adotado pelo presidente norte-americano em relação ao Brasil. Trump buscou abrir diálogo com o governo Lula, apesar do histórico de desconfiança e afastamento. O gesto ganha relevância considerando que o Brasil é um parceiro comercial que gera superávit para a balança americana, o que torna inaceitável impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Ainda mais grave foi condicionar a negociação à suspensão do processo que resultou na condenação do ex-presidente Bolsonaro pelo STF.
É prudente encarar com cautela essa surpreendente “química” que Trump confessou sentir por Lula. O mundo conhece a imprevisibilidade do ex-mandatário norte-americano e os traços de instabilidade que marcam sua personalidade. A aproximação repentina parece ter mais motivação política e geopolítica do que afinidade pessoal. São líderes com visões divergentes sobre comércio e relações internacionais, o que exige sobriedade no tratamento desse novo cenário.
Na conversa telefônica de 30 minutos com Lula, Trump designou o Secretário de Estado, Marco Rubio, como interlocutor junto aos ministros e diplomatas brasileiros. Vale lembrar que Rubio foi o coordenador do processo que impôs sanções e tarifas ao Brasil, além de condicionar a libertação de Jair Bolsonaro como exigência para avanços nas negociações. Resta agora observar como se comportará diante da mudança de postura do seu chefe. Lula deixou claro que não aceitará pautas ideológicas radicais, tampouco o discurso preconceituoso e agressivo contra o Brasil, frequentemente alimentado por Eduardo Bolsonaro.
Apesar das diferenças, Lula e Trump têm a oportunidade de transformar a tensão comercial em cooperação concreta, em benefício de ambos os países. O fato de as “cartas estarem na mesa” já representa um avanço, sinalizando disposição recíproca para o diálogo. Que o pragmatismo prevaleça sobre a ideologia. Afinal, o Brasil é hoje o nono maior destino das exportações dos EUA e o quinto em termos de superávit comercial para eles.
A trajetória de Lula inspira confiança na condução dessas negociações. Experiente, sabe reagir a pressões arbitrárias e valorizar os interesses nacionais. Do outro lado, enfrentará um agente político que muda de discurso conforme as circunstâncias. Se fosse uma partida de futebol, poderíamos dizer que Lula está vencendo por um a zero, com uma defesa sólida e estratégia inteligente, capaz de impedir qualquer virada em desfavor do Brasil. Um capitão experiente à frente do time brasileiro.
Rui Leitão
