UNICEF reúne 150 profissionais de 110 municípios para fortalecer práticas antirracistas em João Pessoa
Encontro realizado nesta terça-feira (25), no UNIESP, integra o novo ciclo formativo do Selo UNICEF 2025-2028 e aborda os direitos de crianças e adolescentes indígenas, quilombolas, negros, ciganos e de comunidades tradicionais

Cerca de 150 gestores, técnicos, articuladores e mobilizadores de 110 municípios paraibanos participaram, nesta terça-feira (25), do 4º Ciclo de Formação do Selo UNICEF – Edição 2025-2028. Realizado no auditório do UNIESP, em João Pessoa, o encontro é dedicado à equidade étnico-racial e ao fortalecimento de práticas antirracistas nas políticas públicas municipais.

A formação integra o Resultado Sistêmico 6 da metodologia do Selo UNICEF e busca qualificar profissionais das áreas de saúde, educação, assistência social e proteção de direitos para identificar e enfrentar o racismo institucional, garantindo o acesso de todas as crianças e adolescentes às políticas públicas. Durante o encontro, foram discutidos estudos de caso que demonstram como o racismo pode afetar a vida de crianças e adolescentes desde a primeira infância, alcançando o ambiente escolar, os serviços de saúde e outros espaços de atendimento.
“Estamos conversando com articuladores do Selo UNICEF de cidades da região de João Pessoa e analisando casos que mostram como o racismo afeta a primeira infância, a escola e os serviços de saúde. É fundamental que cada profissional e gestor desenvolva políticas que garantam o acesso aos direitos, sem deixar nenhuma criança ou adolescente quilombola, indígena, negro ou cigano de fora”, destacou Immaculada Prieto, chefe do Escritório do UNICEF para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.
O coordenador nacional do Selo UNICEF, Higor França, disse que a formação busca incorporar a equidade étnico-racial ao cotidiano das gestões públicas. “Queremos que, até 2028, os 212 municípios paraibanos que aderiram ao selo integrem essa abordagem às políticas de saúde, educação e assistência social, garantindo acesso equitativo aos direitos de crianças e adolescentes negros, indígenas e quilombolas”, afirmou.
A programação também contempla temas como a adesão ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR), a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e a revisão dos Planos Municipais pela Primeira Infância sob a perspectiva étnico-racial.
Para Graça Lima, coordenadora de Projetos da Asserte, parceira implementadora do Selo UNICEF em Alagoas, Paraíba e Pernambuco, a formação contribui diretamente para ampliar a capacidade de atuação dos municípios. “Este ciclo de formação é voltado às práticas antirracistas e reúne cerca de 150 profissionais e técnicos de 110 municípios. A Asserte, como parceira implementadora do Selo UNICEF, está realizando esta etapa em cinco estados do Nordeste, apoiando as gestões municipais na construção de políticas públicas mais inclusivas e equitativas”, explicou.
Experiências dos municípios
As experiências compartilhadas durante a formação mostraram como o racismo pode afetar a autoestima, a identidade e o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Liliane Amorim, articuladora do Selo UNICEF no município de Pedras de Fogo, relatou o acompanhamento de uma criança negra que, inicialmente, não reconhecia nem aceitava sua cor, sua origem e sua identidade racial. Após um trabalho cuidadoso desenvolvido pelos profissionais do município, ao longo de três anos, a criança passou a compreender e valorizar sua identidade.
“Estamos aqui para relatar o caso de uma criança do nosso município que não aceitava sua cor, sua raiz e sua origem enquanto pessoa negra. Nossos profissionais trabalharam essa questão com muito carinho e cuidado e, depois de três anos, ela passou a reconhecer e aceitar sua identidade”, contou.
Liliane também chamou a atenção para a dificuldade de algumas famílias em declarar a raça ou a cor dos filhos nos cadastros públicos, muitas vezes em consequência de experiências anteriores de discriminação. “Muitos pais não autodeclaram seus filhos como negros porque já passaram por situações de racismo e têm medo de que as crianças vivam as mesmas experiências. Por isso, é importante que mobilizadores, articuladores e toda a sociedade compreendam o valor do respeito à identidade étnico-racial”, ressaltou.
Respeito às diferentes formas de ensinar e aprender
Em Marcação, município onde aproximadamente 89% da população é indígena, a formação representa uma oportunidade para compartilhar as experiências do povo Potiguara e ampliar conhecimentos que possam fortalecer as práticas já desenvolvidas no território.
De acordo com Rodrigo Guarani Araújo, secretário de Assuntos Indígenas de Marcação, as políticas públicas precisam respeitar as especificidades culturais e as diferentes formas de ensinar e aprender. “Não existe diferença no ensino. Existe diferença na didática, na forma como a informação é passada para uma melhor compreensão”, afirmou.
Para o secretário, participar desse processo formativo também contribui para aproximar as experiências vivenciadas nos territórios indígenas das ações desenvolvidas pelos demais municípios paraibanos.
“Nunca mais um Brasil sem nós”
O cacique Ednaldo Tabajara, liderança do povo Tabajara da Paraíba, destacou a importância de incluir a diversidade étnico-racial na formação de professores, gestores e demais profissionais que atuam diretamente com crianças e adolescentes.
Com uma população estimada entre 1.500 e 2 mil pessoas, o povo Tabajara está presente em diferentes municípios paraibanos e segue fortalecendo sua história, sua cultura e sua identidade.Para o cacique Ednaldo, a escola tem um papel fundamental na construção de uma sociedade que reconheça e respeite os povos indígenas, quilombolas, negros, ciganos e as comunidades tradicionais. “Dentro das escolas pode ser ensinado o respeito. É daí que a gente consegue construir um mundo melhor para o futuro”, afirmou.
Durante o novo ciclo formativo do Selo UNICEF, a liderança também reforçou uma mensagem que sintetiza a luta dos povos indígenas por participação, reconhecimento e garantia de direitos: “Nunca mais um Brasil sem nós.”
Formação continua em Patos
O segundo encontro do 4º Ciclo de Formação será realizado na quinta-feira, 27 de agosto, em Patos, no Campus VII da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), das 8h às 16h.
Na Paraíba, 212 municípios participam da atual edição do Selo UNICEF. Neles, vivem 879.748 crianças e adolescentes com menos de 19 anos, além de 27.288 pessoas indígenas e 14.501 quilombolas. Considerando apenas a faixa de 0 a 17 anos, o Censo 2022 do IBGE registrou, em todo o estado, 9.235 crianças e adolescentes indígenas e 5.258 quilombolas.
Os encontros são realizados pelo UNICEF com o apoio da Asserte, parceira implementadora da iniciativa, e contam com a participação de lideranças e organizações indígenas e quilombolas. A proposta é assegurar que as ações sejam construídas de maneira participativa, em diálogo com os territórios e as comunidades.
Sobre o Selo UNICEF
O Selo UNICEF é uma das maiores iniciativas de fortalecimento de políticas públicas do país. Na edição 2021-2024, 933 dos 2.023 municípios mobilizados receberam a certificação, com avanços em indicadores relacionados à infância e à adolescência, como imunização, permanência escolar e prevenção das violências.
A edição atual segue até 2028 e alcançou o número recorde de 2.277 cidades participantes em 18 estados. A iniciativa reconhece os esforços dos municípios na promoção, realização e garantia dos direitos de crianças e adolescentes.




