O DESPERTAR DO “NOVO SINDICALISMO”
Foi em maio de 1978, com a emblemática greve dos operários da Scania, em São Bernardo do Campo (SP), que o Brasil despertou para uma nova forma de organização da classe trabalhadora: o chamado “Novo Sindicalismo”. Uma mobilização combativa, autônoma e articulada que surpreendeu os generais no poder e alterou os rumos do processo de abertura política. A greve rompeu com o modelo sindical tutelado pelo Estado, desafiando a legislação antigreves e propondo novas práticas de luta, como as comissões de fábrica, que passaram a discutir diretamente os problemas nos locais de trabalho. Pela primeira vez, depois de muitos anos paralisados em sua ação sindical e política, os trabalhadores, retomaram a iniciativa frente ao Estado e ao patronato.
Desde o AI-5, em 1968, sindicatos enfrentavam repressão e intervenções. Muitos estavam nas mãos de “pelegos”, lideranças alinhadas ao patronato. Com o agravamento da crise econômica, a partir do choque do petróleo em 1973, os trabalhadores foram duramente atingidos por uma política de arrocho salarial. O ambiente era de insatisfação crescente.
Foi nesse cenário que, entre 1977 e 1978, especialmente no ABC paulista, o movimento sindical começou a se reorganizar. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema marcou uma virada. Os trabalhadores não aceitavam mais reajustes manipulados e aderiram em massa às greves. Cerca de 117 mil operários de 132 indústrias participaram da paralisação, conquistando aumentos e antecipações salariais.
A mobilização se espalhou. Greves e protestos atingiram São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A repressão foi dura: houve mortos, feridos e prisões. Em 1979, 180 mil trabalhadores cruzaram os braços em mais uma greve considerada ilegal. No ano seguinte, uma paralisação histórica durou 41 dias e contou com 300 mil participantes. O governo reagiu com intervenção nos sindicatos e prisão de suas lideranças. Lula e outros 14 sindicalistas foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional.
As greves entre 1978 e 1980 romperam o silêncio imposto pela ditadura e se integraram às demais lutas populares pela anistia, pelas Diretas Já e pela redemocratização. O movimento sindical tornou-se ator político. Em 1980, nasceu o Partido dos Trabalhadores (PT), fundado por sindicalistas, intelectuais e religiosos comprometidos com as causas populares. Três anos depois, surgia a Central Única dos Trabalhadores (CUT), rejeitando o sindicalismo oficialista e defendendo a organização de base.
Hoje, diante das transformações sociais, econômicas e tecnológicas, os sindicatos enfrentam o desafio de se reinventar. A globalização, a informalidade e as novas formas de trabalho exigem resistência criativa e mobilização permanente.
O Novo Sindicalismo deixou um legado político e histórico. Foi um divisor de águas no fim da década de 1970, demonstrando a força da classe trabalhadora na construção de um país mais democrático e justo. A demanda trabalhista por liberdade sindical, contra o arrocho salarial e a ditadura militar, representava a luta por novos direitos no espaço da produção, assim como a busca da cidadania na esfera política. Também conhecido como “sindicalismo autêntico” tornou-se a expressão do novo perfil da classe trabalhadora.
Rui Leitão
