LULA: ENTRE O AMOR E O ÓDIO

Inicio este texto lembrando de uma canção intitulada “As aparências enganam”, composta por Sérgio Naureza e Tunai, imortalizada na voz de Elis Regina, nos versos: “As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”. Isso representa bem o momento político que temos vivido nos últimos anos em nosso país. A sociedade brasileira não conseguiu, ainda, vencer o ranço colonialista herdado da sua história. Impressionam as manifestações diferenciadas dos lados antagônicos na cena política nacional. Principalmente em relação a Lula.
Enquanto uns o admiram, idolatram e respeitam. Outra parcela da população o odeia, o detesta, numa oposição gratuita, sem saber, sequer, a razão dessa reação hostil à sua liderança política. Podemos atribuir, como diz a canção popular, que tudo isso é consequência da fogueira das paixões. Porém, não há como ignorar que nossa formação histórica escravocrata e racista tem feito com que as mentes e corações de nossa gente tenham sido infectados por valores inaceitáveis na convivência civilizada de um povo.
Ainda que muitos queiram argumentar de que existam motivações ideológicas, o que se percebe é que afloram sentimentos de contrariedade, por não aceitarem que um ex-operário, nordestino, de origem humilde, tenha conseguido, por três vezes, pelo voto popular, ocupar a presidência da República. Os setores dominantes da nossa sociedade tentam disfarçar produzindo um discurso político de que a repulsa explicitada está justificada pelo entendimento de que ele representa uma ameaça comunista da esquerda, sem que ofereçam sinalizações de que isso possa ser encarado como uma realidade a ser enfrentada. Lula nuca foi uma ameaça comunista. Os mais de dez anos em que esteve governando o Brasil têm provado o contrário. A burguesia comercial, industrial, agrária e financeira, sempre ganhou muito durante seus governos.
O que se torna inquestionável é que a elite brasileira, por permanecer vivendo sob o signo da casa-grande, não admite o lugar que Lula ocupa na História. Causam incômodos, as mudanças que tem implementado em direção à justiça social e equidade econômica. As elites, mesmo usufruindo de lucros e benefícios econômicos, não o perdoam. O diplomata aposentado Milton Rondó, numa entrevista concedida à revista Carta Capital, afirmou: “Lula é mais aceito pelo establishment internacional do que pelas oligarquias locais”. A mídia corporativa resiste em mostrar a importância da liderança do ex-presidente, reconhecido e prestigiado no mundo inteiro. É difícil igualar os desiguais.
A pergunta que se faz necessária é: “Que Brasil queremos? O do ódio ou o do amor?
– Rui Leitão é um jornalista, escritor e diretor de Rádio e TV da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC). Ele é membro da Academia Paraibana de Letras e tem diversos livros publicados, além de assinar colunas em jornais e portais de notícias. Ele também foi diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico da Paraíba e da Coordenadoria do Patrimônio Artístico e Cultural de João Pessoa.

