Por Rui Leitão – O Brasil foi surpreendido, no dia 25 de agosto de 1961, com a notícia da renúncia do presidente Jânio Quadros, fato que levou o país a mergulhar numa grave crise política. Setores golpistas articulavam o impedimento da posse do então vice-presidente João Goulart, que estava em Cingapura quando foi avisado dos acontecimentos, na madrugada do dia 26. Ele presidia uma missão comercial e havia passado pela China antes de chegar àquele país do Sudeste Asiático. Informado de que seria preso no instante em que desembarcasse no Brasil, foi orientado a aguardar em Montevidéu.
Brizola, governador do Rio Grande do Sul, reagiu liderando um movimento em defesa da ordem democrática e do respeito à Constituição, buscando garantir que Jango assumisse a presidência. Montou uma forte estrutura de resistência no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, fazendo uso de um canal de comunicação chamado “Rede da Legalidade”, formado pela Rádio Guaíba — cujos equipamentos do estúdio foram transferidos para os porões do palácio — e mais de uma dezena de emissoras gaúchas, catarinenses e paranaenses, com retransmissão de suas mensagens para mais de uma centena de rádios em todo o país. A rede funcionou durante 12 dias.
A recusa dos ministros militares em aceitar a posse de João Goulart na Presidência da República gerou um ambiente de grave tensão no país. Temia-se uma guerra civil. Às 15 horas do dia 27 de agosto, Brizola ocupou, pela primeira vez, os microfones da Rede da Legalidade, proferindo um inflamado discurso. Caravanas do interior marcharam rumo a Porto Alegre para fortalecer a trincheira de luta comandada pelo governador. O jornal Última Hora, em edição extra, publicou um editorial na primeira página em que afirmava: “Nem que seja para ser esmagado, o Rio Grande do Sul reagirá. Mas não será esmagado, porque todo o Brasil está pronto para repelir o golpe.”
A sede do governo gaúcho e seus arredores transformaram-se num cenário de guerra, com barricadas de sacos de areia e rolos de arame farpado protegendo as entradas e o terraço do palácio, sob ameaça de bombardeio aéreo. Sargentos da Aeronáutica evitaram que isso acontecesse, retirando peças e furando pneus dos aviões na Base Aérea de Canoas. Multidões se aglomeravam na Praça da Matriz, onde políticos, religiosos e militares simpáticos ao movimento se revezavam em discursos. Às três da madrugada da segunda-feira, dia 28, o governador deu uma entrevista coletiva, com uma metralhadora a tiracolo. Dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, posicionou-se em favor da posse de Jango, chegando inclusive a comunicar essa sua decisão ao comandante do III Exército. A Assembleia Legislativa, que ficava ao lado esquerdo do Palácio, manteve-se em sessão permanente.
Os militares, em Brasília, determinaram a posse do deputado Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara Federal, na Presidência da República. Em seguida, constituíram uma junta militar informal, integrada pelo general Odílio Denis, o brigadeiro Grun Moss e o almirante Silvio Heck. Armavam-se as condições para um golpe de Estado, ainda que sem apoio parlamentar, nem mesmo da UDN, exceto por Carlos Lacerda. Na imprensa, apenas o jornal O Estado de S. Paulo apoiou os golpistas. Também não havia consenso nas Forças Armadas.
(Continua na edição do próximo domingo)


