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Brasil: Nunca Mais — um grito contra o esquecimento

Por Rui –  Leitão Poucos documentos na história recente do Brasil têm a força simbólica e a importância histórica do Projeto Brasil: Nunca Mais. Concebido e executado entre 1979 e 1985, em pleno regime militar, ele escancarou as entranhas da repressão política praticada sob o pretexto da Doutrina de Segurança Nacional. Durante seis anos, uma equipe formada por religiosos, advogados, jornalistas e ativistas reuniu, em absoluto sigilo, provas oficiais da prática sistemática da tortura no país.

O que se revelou foi chocante: assassinatos, desaparecimentos forçados, perseguições políticas e métodos de tortura dignos dos mais sombrios regimes totalitários. Tudo isso documentado em mais de 700 processos penais completos, extraídos do próprio sistema judiciário militar. Um milhão de cópias em papel e 543 rolos de microfilmes foram produzidos, num trabalho digno de uma operação de guerra pela verdade.

A ideia nasceu do reverendo Jaime Wright, da Igreja Presbiteriana, que perdeu o irmão nas mãos da ditadura. Procurou Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e encontrou apoio imediato. Somaram-se à missão o rabino Henry Sobel e o Conselho Mundial de Igrejas, que financiou a iniciativa. Ecumênico, corajoso e silencioso, o projeto foi um dos maiores atos de resistência civil já registrados na América Latina.

Em 1985, com a redemocratização batendo à porta, foi lançado o livro Brasil: Nunca Mais. Virou best-seller. Mais de 200 mil cópias vendidas num país sedento de verdades escondidas. A obra trouxe relatos colhidos nos próprios processos judiciais: choques elétricos, pau de arara, afogamentos, a famigerada “cadeira do dragão”, confinamento em câmaras frias — a “geladeira”. Tortura não como desvio, mas como política de Estado.

O mais espantoso? Tudo devidamente registrado pelos próprios agentes da repressão. Os militares, conforme explicou o reverendo Wright, tinham a obsessão tecnocrática de documentar tudo. Nunca imaginaram que, um dia, prestariam contas à história.

O livro é dividido em seis partes, com cinco anexos e farta documentação. No prefácio, Dom Paulo Arns e Philip Potter, do Conselho Mundial de Igrejas, alertam: o que está ali não é ficção nem exagero — é denúncia com base em fontes oficiais.

Em 2014, o livro ganhou nova edição, marcando os 50 anos do golpe militar. E ainda hoje é possível acessar todo o material digitalizado no site bnmdigital.mpf.mp.br. Uma riqueza documental sem igual, que deve ser preservada como patrimônio da memória nacional.

Num país com tendências recorrentes ao autoritarismo e ao negacionismo histórico, Brasil: Nunca Mais é mais do que um livro. É um lembrete. É um alerta. É um clamor coletivo para que nunca mais se aceite o silêncio diante da barbárie.

Porque esquecer é permitir que se repita.

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