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Marcha para Jesus 2026 : a presença política chamou mais atenção do que o manifesto público da fé

Ilustração

A Marcha para Jesus nasceu com a promessa de ser um dos maiores manifestos públicos de fé, amor e união do mundo cristão. Um momento em que as diferenças denominacionais seriam deixadas de lado para que o povo evangélico, em uma só voz, pudesse dar um testemunho de paz e pregar a mensagem da salvação. No entanto, o que se viu nos jornais e portais de notícias após o evento de ontem, em São Paulo, foi um cenário bem distante do sagrado. Mais uma vez, a marcha ganhou as manchetes não pelo fervor espiritual ou pelas ações de solidariedade, mas por ter se transformado em um megafônico palanque político. Com a total anuência dos organizadores, o espaço de adoração foi sequestrado, por longo espaço  de tempo, por interesses eleitorais, convertendo fiéis em uma plateia de campanha antecipada.

​O grande protagonista dessa distorção foi o presidenciável Flávio Bolsonaro. Ao subir ao palco, o político não apenas usou o espaço para se promover, mas manipulou de forma cirúrgica os códigos e a linguagem que tocam o coração do público religioso. Flávio entoou discursos inflamados sobre “expulsar o mal do governo do Brasil” e bradou que o país vive uma “guerra espiritual”. Essa narrativa, profundamente enraizada no imaginário evangélico, foi estrategicamente instrumentalizada para demonizar adversários e santificar a sua própria jornada rumo ao poder. Para coroar a performance e consolidar a imagem de “representante oficial” daquela massa, o político chegou a cantar, um tanto desafinado, música gospel. Uma cena que constrange quem busca o sagrado, mas que funciona perfeitamente como peça de marketing político.

​Essa infiltração escancarada, permitida e até aplaudida no evento, acende um sinal de alerta urgente e inevitável. A pergunta que ecoa no pós-marcha e que incomoda muitos cristãos genuínos é: a Marcha para Jesus está deixando de cumprir sua mensagem de evangelismo para o mundo? Ao abrir as portas para que figuras públicas usem a fé como moeda de troca por votos, o evento corre o risco de esvaziar seu propósito original. Em vez de ser um farol de esperança e transformação social inspirada pelo Evangelho, a caminhada passa a ser vista por grande parte da sociedade como um mero ato de massa de manobra, onde o rebanho é conduzido não ao pastor, mas às urnas.

​O perigo de misturar o altar com o palanque é que, quando a poeira da política baixa, o que fica prejudicado é o próprio testemunho da Igreja. Ao permitir que o sagrado seja blindagem para projetos de poder humano, os organizadores rebaixam a grandeza da fé a uma mera ferramenta ideológica. Se a Marcha para Jesus quiser preservar sua verdadeira relevância e o respeito público, precisará decidir se continuará marchando em direção ao Reino de Deus ou se continuará servindo de rampa para o próximo candidato de plantão.

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