colunaRui Leitão

Uma dancinha inexplicável

Há algo de profundamente contraditório e revelador na postura recente do candidato Flávio, expoente da extrema direita. Em seus atos de pré-campanha pelo país, ele se entrega a performances coreografadas, dançando de maneira efusiva, quase festiva, como se estivesse em permanente celebração. A cena, por si só, já causaria estranhamento diante do ambiente político que o cerca.

Mas o contraste se torna ainda mais agudo quando, no mesmo palco, o tom muda abruptamente. O candidato abandona o ritmo leve e assume o papel de filho aflito, evocando o estado de saúde do pai, preso sob acusação de tentativa de golpe de Estado. A narrativa passa então a ser de vitimização, como se buscasse sensibilizar o público por meio de um drama pessoal cuidadosamente inserido no discurso político.

Essa alternância entre euforia e lamentação não parece casual. Ao contrário, sugere uma estratégia deliberada: mobilizar emoções distintas, ora a adesão festiva, ora a compaixão, conforme a conveniência do momento. O que poderia ser apenas incoerência revela-se, na verdade, cálculo.

O problema é que tal comportamento expõe um paradoxo difícil de sustentar. Como conciliar a leveza quase carnavalesca das danças com a gravidade de um discurso que denuncia supostas injustiças e perseguições? Como pedir solidariedade enquanto se celebra? A política, quando se apoia excessivamente na manipulação emocional, corre o risco de perder a conexão com a realidade e com a própria coerência.

No fim das contas, a dancinha não é inexplicável. Ela faz parte de um roteiro. E talvez seja justamente isso o mais inquietante: não se trata de espontaneidade, mas de encenação.

Rui Leitao

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