colunaRui Leitão

A Guerra cultural chegou aos pés

A atriz Fernanda Torres parece mesmo predestinada ao sucesso. Mal teve tempo de vivenciar plenamente a glória de conquistar projeção internacional com sua participação no premiado filme Ainda Estou Aqui e já se vê, novamente, no centro de uma polêmica nacional — desta vez provocada pela expressão “não entre o ano com o pé direito”.

A repercussão, como era de se esperar, ganhou contornos de humor. Nas redes sociais, o episódio virou meme, rendendo piadas, comentários irônicos e uma enxurrada de compartilhamentos.

O vídeo em que a atriz protagoniza uma campanha publicitária das sandálias Havaianas ultrapassou, em poucos dias, a marca de seis milhões de visualizações no Instagram da empresa. Foi o suficiente para que lideranças e influenciadores da extrema direita brasileira lançassem uma campanha de boicote à marca. Morderam a isca. Transformaram uma simples peça publicitária em disputa política. Integrantes dessa bolha ideológica passaram a criticar a campanha, atribuindo-lhe um suposto posicionamento político.

A expressão “entrar com o pé direito” tem origem na Roma Antiga, ligada a crenças místicas que atribuíam forte simbolismo aos lados do corpo humano. O vídeo, no entanto, faz exatamente o contrário: confronta a superstição para falar de movimento, de caminhar com os dois pés, sem negatividade e sem dependência da sorte. Afinal, sandálias são feitas para serem usadas nos dois pés — e foi isso, nada além disso, que Fernanda Torres quis enfatizar. As Havaianas não são exclusivas do pé direito.

E há mais: a atriz apenas cumpriu um roteiro publicitário que, obviamente, não foi escrito por ela. Ainda assim, decidiram acusá-la do “crime” de lembrar que as pessoas caminham com dois pés. Para alguns, símbolos comunistas passaram a ser enxergados até entre as tiras de borracha das sandálias.

As Havaianas, assim como a Coca-Cola, são produtos de mercado consumidos no mundo inteiro, tanto por pessoas pobres quanto por indivíduos de alta renda. No entanto, é inegável que se trata de um calçado amplamente associado às camadas mais humildes da população. Será que esse povo, que usa diariamente essas sandálias — muitas vezes por ser a única alternativa para não andar descalço — vai aderir ao cancelamento da marca apenas porque a extrema direita resolveu atribuir-lhe um significado político e ideológico? Duvido.

Curiosamente, em 2014, a mesma Havaianas lançou uma campanha em que o ex-craque — e hoje senador — Romário afirmava usar apenas o pé direito do chinelo: “Havaianas, o pé direito é nosso”. Não havia qualquer alusão explícita à superstição de que o pé direito traz sorte. A propaganda, inclusive, carecia de lógica. Ainda assim, ninguém enxergou ali mensagem política alguma. Ninguém reclamou.

Será que agora também vão querer proibir o vermelho no Natal? Cancelar o Papai Noel por vestir vermelho, sob a acusação de representar um símbolo da esquerda?

Rui Leitão

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