colunaRui Leitão

A DEMOCRACIA PRECISA DE ADVERSÁRIOS, NÃO DE INIMIGOS

O momento político nacional tem ensejado o surgimento dos chamados “inimigos políticos”. Aprendemos ao longo da vida que as disputas leais são salutares, pois fazem parte da natureza competitiva do jogo democrático. Lamentavelmente, o que estamos observando é o desaparecimento daqueles que conhecíamos como “adversários” numa peleja política. A exacerbação dos ânimos vem favorecendo o aparecimento dos “inimigos”.

O adversário mantém-se no propósito de vencer, derrotar aqueles que estão do outro lado da contenda política, mas o faz defendendo suas posições sem recorrer a ofensas pessoais ou agressões. Restringe-se ao campo do debate de ideias e convicções, reconhecendo a importância do respeito mútuo na competição.

Já o inimigo estimula o clima de animosidade, movido pelo ódio pessoal. Quase sempre se mostra travestido de argumentos ideológicos para justificar sua postura raivosa, arrastando as discussões políticas para o terreno das desavenças pessoais. É nítida a perda do bom senso. A ira produz cegueira na visão isenta dos fatos, conduzindo à precipitação nos julgamentos, com a intenção única de destruir o contendor, desqualificá-lo e menosprezá-lo.

Vivemos, portanto, circunstancialmente, uma situação perigosa. Essa radicalização, estimulada pela mídia e por organizações interessadas em dividir a nação, em nada contribui para o exercício da democracia. No “fazer política” não há necessidade de construir inimizades, nem de cultivar o ódio diante dos que pensam de forma diferente. Não podemos, influenciados pela instabilidade política, partir para hostilidades, para o exercício da cizânia e o estímulo à discórdia. Façamos o bom combate, pautado nas normas democráticas e legais, respeitando direitos e garantias individuais.

Se continuarmos nesse ambiente de guerra, que cresce assustadoramente, estaremos caminhando a passos largos para uma grave conturbação social e política, capaz de colocar em risco o “Estado Democrático de Direito”. A democracia não resiste aos impulsos tempestuosos dos que fazem da política uma arena de confronto entre inimigos.

Rui Leitão

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