Vivemos numa eterna mudança. Lulu Santos reconhece isso na letra da canção “Como Uma Onda”, escrita em parceria com Nélson Motta, e gravada em 1983, quando diz: “nada do que foi será do jeito que já foi um dia”. Na vida tudo é transitório. Tudo se transforma com o tempo, e nada permanece igual.
O filósofo grego Heráclito, por volta dos anos 500 a.C. já tratava do tema. Para ele, “a mudança não era apenas contínua, mas era a própria vida de tudo o que existe”. É muito repetida uma das suas célebres frases: “Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio”. No século XIX, o poeta romântico Novalis aproveita a imagem criada por Heráclito para nos definir como “rios incorporados” – nossos corpos são rios que fluem. Drummond poetizou o mesmo sentido de transitoriedade na referência às mudanças corporais, nos versos de seu Canto esponjoso: “Bela / a passagem do corpo / sua fusão no corpo geral do mundo”.
Nossa história de vida é constituída por ciclos. Precisamos identificar quando um se encerra e outro começa. Sempre buscando reconhecer em cada etapa os ensinamentos que nos apresenta, com seus valores e fascínios, tanto quanto os dissabores e desencantos. Conscientes que nem sempre ganhamos, algumas vezes temos que enfrentar circunstâncias de perdas.
Hoje não somos a mesma pessoa que fomos ontem. Afinal de contas, a vida não é estática. Ainda que vivamos situações repetidas, as emoções nunca serão as mesmas. O importante quando chegamos à conclusão de que o tempo passa, é ter a compreensão de que devemos aproveitar, da melhor maneira possível, cada instante da vida, porque ela é impermanente. A realidade é um movimento, recuperando o pensamento filosófico pré-socrático de Heráclito. Somos atores, então, do nosso próprio movimento, quando dialogamos com a ambiência em que estamos inseridos, melhor compreendendo assim as suas interferências na forma como devemos pensar ou agir, evitando que assumamos posturas irracionais e instintivas.
Os sonhos, os desejos, as idealizações, surgem nessa permanente mudança, seja na nossa vida pessoal, seja na nossa convivência social. Esse constante movimento de transformação é a chave para evolução, desde que jamais nos acomodemos e permaneçamos aprendendo com os erros e acertos e façamos as escolhas certas para o nosso amanhã.
Rui Leitão


