Resistência Feminina à Ditadura Militar
É necessário recuperar as histórias e lutas das mulheres que enfrentaram, com coragem e determinação, a ditadura militar no Brasil. Muitas delas foram protagonistas na resistência ao regime autoritário instaurado com o golpe de 1964. Não foram apenas vítimas da repressão política — sofreram também uma violência de gênero sistemática, marcada por agressões físicas, psicológicas e sexuais.
Ao romperem com o papel tradicional que lhes era imposto, essas mulheres se engajaram ativamente na vida política, enfrentando riscos extremos. Participaram de movimentos estudantis, sindicais, comunitários e, em alguns casos, da luta armada. Lutaram e morreram por direitos humanos e por justiça social.
Muitas mulheres foram presas, torturadas e assassinadas. Nos cárceres, apoiavam-se mutuamente para resistir às atrocidades do Estado. As torturas aplicadas a elas diferiam das infligidas aos homens: grávidas foram forçadas a abortar durante as sessões de tortura; choques elétricos eram aplicados nos órgãos genitais; foram estupradas por agentes da repressão.
Algumas foram brutalizadas diante dos próprios filhos ou impedidas de amamentá-los. Essa violência sexualizada não visava apenas destruir seus corpos, mas aniquilar seus espíritos e desumanizá-las.
A militância feminina não se restringiu às universitárias da classe média. Também nas periferias urbanas e nas zonas rurais surgiram importantes lideranças de mulheres. Sensíveis às dificuldades do cotidiano, organizaram-se para reivindicar seus direitos e combater o autoritarismo.
Através de clubes de mães, associações de bairro, sindicatos e comunidades eclesiais de base, essas mulheres construíram redes de solidariedade e enfrentamento. Em São Paulo, contaram com o apoio da Cúria Metropolitana, liderada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, que acolheu esses movimentos durante os anos mais violentos da ditadura, sobretudo após o AI-5.
Em 1973, surgiu o Movimento do Custo de Vida, que levou mais de 200 mil pessoas à Praça da Sé cinco anos depois. Na ocasião, foi entregue ao governo um abaixo-assinado com mais de um milhão de assinaturas, em protesto contra a política econômica do regime.
As mulheres também protagonizaram a busca por mortos e desaparecidos. Mães, esposas, irmãs e filhas passaram a denunciar os crimes cometidos pelo Estado e a lutar pela preservação da memória. Em 1975, surgiu o Movimento Feminino pela Anistia, que ganhou visibilidade internacional e ampliou a pressão por justiça.
Essas mulheres transformaram experiências de dor, luto, perseguição e tortura em força coletiva. A resistência feminina à ditadura não foi apenas uma batalha por democracia, mas por sobrevivência e liberdade. Uniram suas vozes na denúncia dos crimes do regime, exigindo memória, verdade e justiça.
Por isso, recuperar essas trajetórias é um dever histórico. Foram consideradas “subversivas” por desafiar a ordem patriarcal e ditatorial. Mas, na verdade, foram heroínas de uma luta que ainda inspira gerações.
Rui Leitão

