colunaRui Leitão

PUXANDO PELA MEMÓRIA: O surpreendente desfecho do processo sucessório

No dia 25 de abril de 1978 a Paraíba inteira estava com suas atenções voltadas para Brasília, aguardando o resultado da audiência do Governador Ivan Bichara com o Presidente Geisel, quando teríamos a definição do processo sucessório em nosso Estado. A todo instante vinham informações dando conta do que estava acontecendo. Claro que entre essas notícias havia muita especulação e boatos, o clima era de nervosismo e ansiedade.

Os dois grupos em disputa na ARENA paraibana enviavam comunicações favoráveis aos seus respectivos interesses. Ambos manifestavam otimismo em relação ao desfecho tão aguardado. A única certeza era de que naquela noite conheceríamos o nome do futuro governador. Por volta das vinte e três horas todos já davam como certa a indicação do deputado Antônio Mariz. Seus correligionários discretamente já comemoravam essa definição. Adormeci na convicção de que essa teria sido a escolha do Presidente Geisel.

Fui acordado por meu pai as duas horas da manhã, em minha casa, com a surpreendente notícia de que Geisel teria optado pela escolha de um “tertius”, na intenção de fazer desaparecer os desentendimentos no seu partido aqui na Paraíba. O governador Ivan Bichara havia telefonado para ele solicitando que fosse comunicar oficialmente, em seu nome, a Tarcisio Burity que ele seria o seu sucessor. Quando chegamos em sua residência o ambiente já era de festa. Tarcisio Burity se mostrava impactado pela surpresa.

O retorno de Ivan Bichara à Paraíba, na tarde do dia 26 levou mais de cinco mil pessoas ao aeroporto, de onde as treze e trinta horas saiu em carreata (calculava-se em mais de mil veículos) pelas ruas da cidade até o Palácio da Redenção. O senador Milton Cabral, que acompanhava o governador, se disse plenamente satisfeito com a escolha de Burity.

Mariz recebeu a notícia com a sua conhecida postura de tranquilidade, sem alterar sua rotina de trabalho, tendo ido cumprir sua agenda como deputado sem qualquer modificação do que fazia habitualmente. Em entrevista concedida à imprensa assim se manifestou a respeito: “Reconheço em Tarcisio Burity boas qualidades intelectuais e morais. Faço votos de que seja um bom governador. Não tive, contudo, nenhuma participação na sua escolha. Nenhuma composição política precedeu essa decisão tomada unilateralmente. Também nenhuma composição haverá agora. Não é o destino das pessoas que está em jogo, mas o destino da Paraíba. Prefiro ficar com o povo, que embora subtraído no seu direito de eleger o governante, soube demonstrar de forma inequívoca as suas preferências”.

No dia seguinte à chegada de Ivan foi a vez de Mariz ser recebido festivamente pelos seus correligionários. Uma multidão tomou conta de todos os espaços do aeroporto Castro Pinto com o objetivo de saudá-lo. Desfilou pelas ruas em cima de um jeep, ao lado dos deputados Álvaro Gaudêncio e Edvaldo Mota. Entre os discursos proferidos na ocasião, um deles foi sintomático do que estaria para acontecer nos próximos dias. Marcos Odilon foi categórico ao afirmar: “não abriremos mão do nosso desejo de fazer Mariz o futuro governador da Paraíba. Vamos para a disputa na convenção”. Estava dada a senha do que viria a acontecer.

Rui Leitão

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