colunaRui Leitão

O DNA AUTORITÁRIO DA POLÍTICA BRASILEIRA

Seis décadas nos separam do golpe militar de 1964. No entanto, ainda não conseguimos nos livrar dos vestígios de autoritarismo que persistem na política brasileira. Nosso sistema continua garantindo o controle das elites sobre as instituições, inclusive as partidárias, o que favorece o surgimento de novas propostas de implantação de um modelo autocrático de dominação política.

A nossa formação socio-histórica sempre esteve marcada por uma relação conflituosa entre autoritarismos e resistências, sustentada por uma cultura racista e elitista que despreza valores éticos e políticos. Essa cultura reprime os movimentos das camadas populares, amparada por ideologias que procuram justificar a concentração de poder, como o nacionalismo, o conservadorismo e o anticomunismo.

A cena contemporânea nacional tem nos apresentado manifestações da direita e da extrema-direita pautadas em ideologias e práticas políticas autoritárias, com uma retórica de confronto e ataques às instituições. Lamentavelmente, mesmo sob um governo democrático, o capital financeiro continua buscando controlar o cenário político. Por isso, as lutas sociais e políticas contra as opressões de classe, de gênero, de raça e de etnia são reprimidas por uma elite dominante que não admite abrir mão de seus privilégios.

Essa perspectiva elitista leva à naturalização das desigualdades, fundamentada em princípios hierárquicos que excluem a maior parte da população dos processos decisórios — seja pela força econômica, seja pelo policentrismo político.

A escritora e filósofa Marilena Chauí aponta que o caráter autoritário da sociedade brasileira é um obstáculo à democracia. Temos constatado que isso é uma grande verdade, ao verificarmos que predomina uma mentalidade hierárquica entre os brasileiros, fazendo com que o autoritarismo social se torne um traço marcante da nossa sociedade. Falta a compreensão de que a democracia não se exerce apenas no direito de eleger e ser eleito, mas, sobretudo, na ampliação da noção de cidadania, de forma a favorecer a consolidação de um comportamento social que se contraponha ao poder de dominação política autocrática.

A democracia brasileira vive sob constante ameaça. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda afirmou que “as elites estabeleceram o reino da vontade dentro da coisa pública”. O autoritarismo encontra-se enraizado no país. É, portanto, fundamental que a sociedade brasileira reconheça os sinais de autoritarismo e se mobilize na luta pelo fortalecimento das instituições democráticas, de modo a garantir a liberdade e a igualdade para todos.

Rui Leitão

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