colunaRui Leitão

TRUMP E A REATIVAÇÃO DA DOUTRINA MONROE

Não há dúvidas de que os Estados Unidos, sob o governo Trump, decidiram recolocar a América Latina no centro de sua estratégia geopolítica. Ao fazê-lo, retomam, de forma explícita, a lógica da Doutrina Monroe, reafirmando a pretensão histórica de tratar o hemisfério ocidental como área de influência exclusiva de Washington. Passados mais de dois séculos, a doutrina volta a servir como fundamento ideológico para uma política externa marcada pelo intervencionismo e pela negação da soberania das nações latino-americanas.

Criada originalmente para se opor à presença das potências européias no continente, a Doutrina Monroe rapidamente deixou de ser um instrumento de defesa e passou a legitimar ações unilaterais dos Estados Unidos. Ao longo do tempo, converteu-se em um mecanismo de imposição de interesses políticos, econômicos e militares, frequentemente à revelia do direito internacional e das instituições multilaterais.

Essa orientação ficou ainda mais evidente quando, no final do ano passado, Donald Trump divulgou sua nova Política de Segurança Nacional. Ao afirmar que os objetivos dos Estados Unidos para o hemisfério se resumiam a “alinhar e expandir”, o governo norte-americano deixou claro que pretendia aprofundar sua presença econômica e, sobretudo, militar na América Latina. Em um contexto de instabilidade política, crise econômica e fragilização institucional em diversos países da região, essa postura assume contornos ainda mais preocupantes.

A escalada de tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela é a expressão mais contundente dessa estratégia. A prisão do presidente Nicolás Maduro por forças militares norte-americanas recolocou no centro do debate a Doutrina Monroe como instrumento de hegemonia regional. Ao conduzir uma operação militar sem qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU ou do Congresso norte-americano, Trump sinalizou um claro desprezo pelos limites do sistema multilateral e pelas normas do direito internacional, reforçando uma política externa baseada na força e no unilateralismo.

A ofensiva militar norte-americana no início deste ano vai muito além da figura de Maduro e das acusações de narcotráfico, das suspeitas de fraude eleitoral em 2024 ou da repressão às forças de oposição. Trata-se, na verdade, de uma redefinição profunda da relação entre os Estados Unidos e a América Latina, marcada pela tentativa de reafirmação de uma hegemonia que muitos consideravam superada. A declaração de Trump de que “a dominância americana no hemisfério ocidental nunca mais será questionada” soa como uma ameaça direta não apenas aos governos sul-americanos, mas também a outras potências globais com interesses na região.

Ao longo de seus mais de duzentos anos, a Doutrina Monroe assumiu múltiplas interpretações, sempre moldadas pelos interesses das elites políticas norte-americanas de cada época. Hoje, sua retomada ocorre em um cenário internacional profundamente distinto, caracterizado pela multipolaridade econômica, pela emergência de novos atores globais e pelo enfraquecimento da ordem internacional liberal. Resta saber se o mundo contemporâneo aceitará, sem resistência, essa tentativa de reedição de uma doutrina marcada pela expansão, pela coerção e pelo desrespeito à soberania dos povos latino-americanos.

Rui Leitão

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo