Adutora inoperante há quase nove anos em São José de Piranhas expõe possível falha grave de gestão e desperdício de recursos públicos
A obra, financiada com recursos públicos, jamais cumpriu sua finalidade essencial

A adutora construída para garantir segurança hídrica à população de São José de Piranhas, no sertão da Paraíba, permanece completamente inoperante há quase nove anos, apesar de concluída e oficialmente apresentada como solução estrutural para o abastecimento de água do município. A obra, financiada com recursos públicos, jamais cumpriu sua finalidade essencial: levar água à cidade. De acordo com relatos reiterados da população, nenhuma gota sequer percorreu os canos da adutora desde sua conclusão.
O prolongado período de inatividade da estrutura ultrapassa qualquer margem aceitável de justificativa técnica e levanta fortes indícios de falha grave de planejamento, execução, fiscalização e gestão, além de possível desperdício de dinheiro público. A responsabilidade política recai diretamente sobre a gestão municipal, comandada pelo prefeito Bal Lins, e sobre o deputado estadual Chico Mendes, liderança política historicamente associada à articulação institucional da obra.
O caso já foi objeto de exposição nacional. Há cerca de três anos, a Rede Globo exibiu reportagem de grande repercussão denunciando que, mesmo cinco anos após a conclusão da obra à época, a adutora seguia sem funcionamento. Desde então, nenhuma providência concreta foi adotada, tampouco foram apresentadas explicações técnicas detalhadas ou cronograma público para a efetiva entrada em operação do sistema. Hoje, o cenário é ainda mais grave: a obra se aproxima de uma década de abandono funcional.
São José de Piranhas possui cerca de 19 mil habitantes, segundo dados oficiais do IBGE, inseridos em uma região historicamente marcada por instabilidade no abastecimento hídrico e vulnerabilidade climática. A manutenção de uma adutora inoperante, nessas circunstâncias, agrava riscos sociais, sanitários e econômicos, especialmente para as camadas mais pobres da população, que dependem diretamente de políticas públicas eficazes de acesso à água.
Do ponto de vista técnico-administrativo, a situação suscita questionamentos objetivos e incontornáveis:
houve falhas no projeto executivo?
a obra foi entregue sem condições técnicas de operação?
existem pendências de integração com sistemas de captação ou distribuição?
faltou fiscalização durante a execução?
ou a estrutura foi simplesmente abandonada após sua conclusão formal?
Até o momento, nenhuma dessas questões foi respondida de forma pública, transparente e documentada pelos responsáveis. A ausência de informações técnicas oficiais, aliada ao longo histórico de inoperância, reforça a necessidade de apuração rigorosa por parte dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB), o Ministério Público Estadual e, a depender da origem dos recursos, o Ministério Público Federal.
Especialistas em políticas públicas de saneamento alertam que obras concluídas e não operacionais podem caracterizar ineficiência administrativa grave e, em determinadas circunstâncias, dano ao erário, especialmente quando não há justificativa técnica plausível nem medidas corretivas adotadas ao longo dos anos.
Enquanto a população segue convivendo com dificuldades no acesso regular à água, a adutora permanece como um símbolo material de desperdício, omissão administrativa e possível irresponsabilidade institucional: uma obra que existe fisicamente, consumiu recursos públicos, foi politicamente capitalizada, mas jamais entregou o serviço essencial que justificou sua construção.
Diante do histórico, a cobrança popular deixa de ser apenas um clamor social e passa a assumir contornos de demanda legítima por responsabilização, transparência e providências imediatas para que a adutora funcione ou, caso contrário, para que sejam apuradas eventuais irregularidades em todas as fases do empreendimento.
Fonte: Espião do Sertão



