QUANDO A VÍTIMA ESCOLHE O SEU PRÓPRIO ALGOZ
Ficamos muitas vezes nos perguntando por que uma parcela significativa da população pobre vota na extrema direita. O que aconteceu para que tantos trabalhadores, submetidos a condições precárias de vida e de trabalho, passem a apoiar partidos identificados com interesses das elites e projetos políticos que, muitas vezes, contrariam seus próprios interesses?
É a velha e conhecida imagem da barata votando no chinelo, escolhendo justamente aquilo que pode destruí-la. O falso discurso de patriotismo, moralidade, ordem e defesa da família oferecem identidade, pertencimento e, sobretudo, um sentimento de valorização a pessoas que frequentemente se sentem marginalizadas, desrespeitadas ou invisíveis. A extrema direita soube compreender essa necessidade e transformá-la em instrumento político.
A defesa de pautas relacionadas à família tradicional, aos costumes e à religião, especialmente com o crescimento das igrejas neopentecostais, aproximou setores de baixa renda das lideranças conservadoras. Esses valores passaram a ocupar um espaço central no discurso da direita e encontraram terreno fértil entre parcelas da população que vivem sob forte vulnerabilidade social.
Sem uma compreensão crítica da própria realidade, o trabalhador torna-se mais suscetível a narrativas que exploram o medo, a insegurança, o ressentimento e a rejeição às mudanças estruturais. O sociólogo Jessé Souza chama atenção, em seus estudos, para a dimensão da humilhação social e da busca por dignidade e reconhecimento como elementos importantes para compreender a adesão de setores populares a determinadas posições políticas conservadoras.
Esse processo não é exclusivamente brasileiro. É um fenômeno observado em diferentes partes do mundo. A extrema direita aprendeu a transformar frustrações reais em ressentimentos políticos, oferecendo respostas simples para problemas complexos e canalizando a insatisfação popular contra aqueles que, muitas vezes, também são vítimas da mesma estrutura de desigualdade.
Muitos trabalhadores passaram a alimentar o sonho de deixar de pertencer à classe trabalhadora. Querem tornar-se pequenos empresários, conquistar independência econômica e, algumas vezes, também uma espécie de independência ideológica em relação ao mundo do trabalho. Esse desejo é legítimo. O problema está em transformar o sonho de ascensão individual em substituto da luta por direitos coletivos.
Nas últimas décadas, assistimos ao enfraquecimento das lutas operárias e populares, ao crescimento da informalidade, à precarização do trabalho e à individualização das relações trabalhistas. Ao mesmo tempo, difundiu-se o discurso da “nova classe média” e do empreendedorismo individual, vendendo ao trabalhador a ideia de que ele poderia simplesmente deixar de ser trabalhador e tornar-se empresário de si mesmo.
O resultado do primeiro turno é um sinal que não pode ser ignorado. Ele demonstra que uma parcela expressiva das camadas populares foi atraída pelo discurso da direita e da extrema direita.
A verdadeira luta de classes no Brasil não se manifesta apenas na oposição entre ricos e pobres. Ela também se trava no campo das ideias, da informação, da cultura e da consciência. De um lado, uma elite econômica e política que conhece muito bem seus interesses. Do outro, uma maioria social frequentemente fragmentada, precarizada e submetida a uma intensa disputa pela interpretação da realidade.
Romper esse ciclo exige mais do que denunciar o fascismo ou apontar suas contradições. Exige disputar consciências, reconstruir solidariedades, recuperar a capacidade de organização popular e devolver ao trabalhador a compreensão de que seus direitos não são privilégios, mas conquistas coletivas.
A saída passa inevitavelmente para a necessidade de ajudá-lo a compreender por que ele é pobre, quem se beneficia da sua pobreza e quais caminhos podem realmente libertá-lo dela. Não será fácil fazer com que, tendo sido eleitores do candidato da extrema direita no primeiro turno, consigam despertar para essa realidade até a data do segundo turno. Mas podemos tentar convencê-los de que estão sob a real ameaça de perder direitos conquistados ao longo da história.
Rui Leitão



