PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS – A Missão Mário de Andrade e o negro na cultura sertaneja

Sérgio Botelho – A entrevista de Luiz Saia, chefe da Missão Folclórica Mário de Andrade, de 1938, ao jornal paraibano A Imprensa, de João Pessoa, publicada na edição de 1º de junho de 1938, sobre a qual falamos no texto desse domingo, 07, traz uma informação relevante para a etnografia do Sertão paraibano.
Literalmente, ele diz o seguinte: “A colheita folclórica que pudemos fixar sugere interessantes estudos neste setor. Por exemplo: o caso da presença do elemento negro no sertão deste estado, que me parecera muito mais importante do que faz crer a versão corrente. A sua influência na arquitetura, no folclore, na arte e na técnica populares, no tipo de vida corrente ali, tem aspetos curiosíssimos que merecem ser revelados.”
Demograficamente, o litoral paraibano, por ter concentrado mais escravos, por conta da exploração da cana-de-açúcar, teria uma mais forte influência africana, enquanto o sertão era visto como área de pecuária com menor densidade negra.
É essa crença que a Missão chefiada por Luiz Saia ajudou a derrubar, enquanto registrava forte presença negra no sertão paraibano. A Missão coletou ex-votos, esculturas e objetos que revelam sincretismo.
A influência negra aparece em objetos rituais, na música e na dança, na imaginária religiosa e na oralidade. Há ainda pesquisas que discutem a participação da mão de obra e dos saberes africanos nas construções feitas com o uso da terra bruta e da madeira à disposição.
Infelizmente, durante muito tempo, preconceitos de tipo racista contribuíram para esconder a pesquisa a respeito. Em 1938, a Missão de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade já sugeria mais luzes sobre o assunto.
Sérgio Botelho, jornalista, escritor e memorialista, escreve diariamente textos, de apelo histórico, sobre a Paraíba, com veiculação nas redes sociais.



