O FRACASSO DA INTENTONA GOLPISTA
Amanhã completa-se o terceiro aniversário do fracasso da intentona golpista que resultou na invasão e depredação das sedes dos três Poderes da República, em Brasília. Trata-se de uma data que precisa ser permanentemente lembrada para que jamais se repita. O brutal ataque à democracia ocorrido em 8 de janeiro de 2023 fez aflorar, de forma lamentável, o que há de pior em nosso país, revelando ressentimentos e recalques movidos por motivações de ordem político-ideológica. Não podemos ficar reféns dos extremistas, tampouco ser tolerantes com a repetição de novos atentados. Atitudes firmes e afirmativas da sociedade brasileira no enfrentamento dessas manifestações antidemocráticas são indispensáveis.
As imagens emblemáticas daquele dia, que não conseguimos esquecer, protagonizadas por aqueles que entendem a democracia como um “luxo perigoso”, continuam a exigir rigorosa apuração de responsabilidades. Tratou-se de uma pretensão golpista terceirizada. Seu principal estimulador sequer estava no país. Os vândalos — fanáticos que acreditavam estar cumprindo uma suposta missão patriótica — foram utilizados como massa de manobra. As principais lideranças desse movimento não se arriscaram a participar dos atos de terrorismo; preferiram colocar pessoas incautas no centro de um furacão que as conduziu às prisões. Ainda assim, a Justiça deve continuar buscando a identificação dos organizadores e financiadores para que sejam punidos exemplarmente. Algumas dessas lideranças já se encontram sentenciadas e encarceradas. Integram uma minoria que não apenas rejeita a democracia, mas tudo o que ela representa: igualdade, diversidade e inclusão — pautas sistematicamente ignoradas pelo governo que se encerrou em 2022.
Se naquela tarde e noite os verdadeiros patriotas e democratas viveram momentos de apreensão, ao final do dia a sensação predominante já era de alívio. As instituições reagiram de forma rápida e eficaz, desmontando o golpe que estava em curso. No dia 9 de janeiro, os 27 governadores já se encontravam em Brasília, hipotecando solidariedade aos presidentes da República, do Supremo Tribunal Federal, do Senado e da Câmara dos Deputados, numa firme demonstração de repúdio aos acontecimentos. Sem apoio popular e sem liderança visível, o golpe revelou-se natimorto.
A reconstrução nacional, em novas bases, não pode ser tarefa exclusiva das instituições, embora estas tenham cumprido o seu papel. É fundamental que a população também se conscientize de sua responsabilidade nessa jornada pela democracia, pela igualdade e pela reconstrução do país. Novos caminhos já estão sendo percorridos. Os eventos programados para amanhã, em todo o território nacional, têm como objetivo desarticular definitivamente a rede golpista que promoveu e executou os atos de terrorismo em Brasília. Espera-se a participação de todas as lideranças políticas comprometidas com o Estado Democrático de Direito. Que a bandeira brasileira não volte a ser sequestrada por analfabetos políticos, como ocorreu naquele fatídico 8 de janeiro, quando foi depredado o patrimônio político, cultural e histórico da nação. A democracia seguirá vencendo, apesar dos radicais de direita que insistem em ataca-la..
Ao longo da minha vida, presenciei ao menos três tentativas de golpe de Estado no Brasil. Duas se consumaram: a de 1964, que instaurou a ditadura militar, e a de 2016, quando retiraram a presidente Dilma Rousseff do poder. A terceira fracassou, abortada ainda no seu nascedouro. O delírio durou poucas horas. Por isso, o dia de amanhã, apesar das tristes lembranças, também é de comemoração: a democracia brasileira foi salva. Mas não podemos baixar a guarda. Eles não desistem facilmente. Sigamos em estado permanente de alerta. O 8 de janeiro de 2023 não foi um “domingo no parque”; foi um dia de terror para a democracia brasileira.
Rui Leitão

